Alguns slides parecem errados mesmo quando não sabemos explicar exatamente por quê.
O título está em um lugar estranho. Dois elementos que deveriam formar um conjunto parecem separados. Cada slide usa uma cor diferente. Tudo tem praticamente o mesmo tamanho e, por isso, nada parece realmente importante.
Na maioria das vezes, o problema não exige talento artístico para ser resolvido. Exige algumas regras simples.
Uma das formas mais úteis de pensar sobre isso é o acrônimo CRAP: Contraste, Repetição, Alinhamento e Proximidade. São quatro princípios básicos de design que ajudam a organizar a informação e, principalmente, a orientar o olhar de quem está assistindo.
Eles não transformam automaticamente uma apresentação ruim em boa. Mas evitam boa parte dos erros que fazem um slide parecer improvisado.
Contraste: mostre o que é mais importante
Se todos os elementos de um slide recebem o mesmo peso visual, a audiência precisa descobrir sozinha onde olhar primeiro.
O contraste resolve esse problema.
Ele pode aparecer no tamanho, na cor, no peso da fonte, na posição ou até no espaço vazio ao redor de um elemento. Um título grande e pesado contrasta com um texto menor. Um número importante pode ocupar boa parte da tela enquanto as informações de apoio permanecem discretas.
O ponto não é simplesmente tornar alguma coisa diferente, é criar hierarquia.
Imagine um slide que mostra crescimento de 37% nas vendas. Há uma grande diferença entre apresentar esse número escondido no meio de seis bullets e colocá-lo como elemento principal da tela, acompanhado apenas da explicação necessária.
O conteúdo é o mesmo. A leitura não.
Também vale uma regra simples: contraste tímido costuma parecer erro. Se dois elementos precisam ser diferentes, torne essa diferença perceptível.
Repetição: faça os slides parecerem parte da mesma apresentação
Uma apresentação não deveria parecer uma coleção de documentos produzidos por pessoas diferentes em épocas diferentes.
Repetição cria unidade.
Isso significa manter certa consistência em fontes, cores, estilos de títulos, ícones, margens e outros elementos gráficos. Se todos os títulos ocupam a mesma posição, a audiência rapidamente aprende onde encontrá-los. Se uma determinada cor representa sempre a mesma categoria de informação, ela começa a adquirir significado.
Não é necessário transformar todos os slides em cópias uns dos outros.
A repetição estabelece uma linguagem visual. Dentro dela, alguns slides podem ser deliberadamente diferentes quando houver uma boa razão.
Um slide de abertura de seção, por exemplo, pode romper o padrão justamente para marcar uma mudança. Ele funciona porque existe um padrão anterior para ser rompido.
Sem repetição, não há consistência. Sem alguma variação, há monotonia.
Alinhamento: crie ordem sem desenhar linhas
Abra um slide e imagine linhas invisíveis passando pelas bordas dos textos, imagens e gráficos.
Quando cada elemento começa e termina em lugares aleatórios, o slide tende a parecer desorganizado, mesmo que individualmente todos os objetos sejam bonitos.
O alinhamento cria relações visuais entre eles.
Uma caixa de texto alinhada à borda de uma fotografia parece pertencer àquela composição. Dois números alinhados pela mesma base são comparados com mais facilidade. Uma sequência de elementos distribuída sobre a mesma linha transmite ordem sem precisar de bordas, caixas ou outros recursos gráficos.
Esse talvez seja o princípio menos percebido conscientemente pela audiência. E justamente por isso é tão importante.
Quando o alinhamento funciona, ninguém comenta que os objetos estão perfeitamente posicionados. O slide simplesmente parece organizado.
Quando não funciona, algo incomoda.
Proximidade: coisas relacionadas devem parecer relacionadas
Nosso olhar usa distância para interpretar relações.
Elementos próximos tendem a ser percebidos como parte do mesmo grupo. Elementos afastados parecem pertencer a grupos diferentes.
Esse princípio é especialmente útil em apresentações porque muitos slides sofrem do mesmo problema: informações relacionadas estão espalhadas pela tela enquanto informações diferentes aparecem quase grudadas.
Imagine três indicadores, cada um acompanhado de seu respectivo valor e explicação. Se os números ficarem de um lado do slide e as explicações do outro, a audiência precisará fazer mentalmente a associação. Se cada número estiver próximo da informação que explica seu significado, a leitura acontece quase imediatamente.
Proximidade também ajuda a reduzir a quantidade de elementos visuais.
Muitas vezes usamos caixas, bordas, setas e linhas para mostrar que duas coisas pertencem ao mesmo grupo. Aproximá-las pode resolver o problema sem acrescentar nada ao slide.
O espaço vazio também comunica.
Separar dois conjuntos é uma maneira simples de dizer que eles representam coisas diferentes.
O CRAP não serve para deixar o slide bonito
Essa talvez seja a parte mais importante: contraste, repetição, alinhamento e proximidade não são apenas princípios estéticos, eles ajudam a organizar informação.
O contraste indica prioridade. A repetição cria consistência. O alinhamento estabelece ordem. A proximidade mostra relações.
Em conjunto, reduzem o esforço necessário para entender um slide. E esse deveria ser o objetivo do design de uma apresentação.
Quando alguém olha para a tela, não deveria precisar decifrar onde começa a leitura, quais elementos pertencem ao mesmo grupo ou qual informação é mais importante. O design deve resolver essas questões antes que o slide apareça.
Da próxima vez que terminar uma apresentação, vale fazer quatro perguntas simples:
Existe contraste suficiente para mostrar o que importa?
Há elementos visuais que se repetem e criam unidade?
Os objetos estão realmente alinhados?
Informações relacionadas estão próximas umas das outras?
Se alguma resposta for “não”, provavelmente ainda existe trabalho a fazer. Um bom slide não precisa chamar atenção para o seu design, precisa tornar a ideia mais fácil de enxergar.
