O poder do fracasso

Em Storytelling, Carmine Gallo conta uma história simples: o pai de Sara tinha um hábito peculiar, mas poderoso. Todos os dias, durante o jantar, ele perguntava: “Em que você fracassou hoje?”. Ele não esperava ouvir histórias de derrota ou decepção; na verdade, ele ficava desapontado se Sara não tivesse nada para compartilhar. Para ele, o…

Em Storytelling, Carmine Gallo conta uma história simples:

o pai de Sara tinha um hábito peculiar, mas poderoso. Todos os dias, durante o jantar, ele perguntava: “Em que você fracassou hoje?”. Ele não esperava ouvir histórias de derrota ou decepção; na verdade, ele ficava desapontado se Sara não tivesse nada para compartilhar. Para ele, o fracasso não era uma indicação de derrota, mas sim de que ela havia se arriscado e tentado coisas novas.

Fracassar porque não houve preparo é apenas fracassar. Mas tentar algo novo, observar o resultado e aprender com ele faz parte de qualquer processo de aperfeiçoamento. E isso vale bastante também para apresentações.

Quando tudo funciona, talvez você esteja repetindo demais

Depois de algum tempo apresentando, é natural desenvolver hábitos.

Você encontra uma estrutura que funciona, cria alguns modelos de slides, aprende determinadas maneiras de começar e terminar uma exposição e passa a repeti-las.

Há vantagens nisso. Experiência existe justamente para evitar que precisemos reinventar tudo a cada apresentação.

O problema surge quando experiência vira automatismo.

A apresentação começa sempre da mesma forma. Os slides têm a mesma aparência. Os exemplos seguem o mesmo padrão. Até as pausas parecem estar no mesmo lugar.

Nada dá muito errado.

Mas talvez também nada novo esteja acontecendo.

Experimentar exige aceitar algum risco: uma abertura pode funcionar menos do que imaginávamos, um slide diferente pode confundir em vez de esclarecer, uma história pode se alongar demais ou uma tentativa de interação com a plateia produzir aquele silêncio que parece durar vários minutos, embora o relógio jure que foram três segundos.

É desconfortável. Também é assim que descobrimos o que funciona.

Experimente antes de precisar acertar

Há, evidentemente, uma diferença entre experimentar e improvisar irresponsavelmente.

Uma apresentação para o conselho de administração provavelmente não é o melhor momento para testar pela primeira vez uma dinâmica complexa que você viu num vídeo na noite anterior.

O ambiente de experimentação pode vir antes.

No ensaio, você pode testar uma abertura diferente. Pode eliminar metade dos bullets e tentar explicar a ideia com uma imagem. Pode apresentar um gráfico de outra maneira, contar uma história em vez de simplesmente enumerar fatos ou descobrir se aquele exemplo que parecia excelente no papel continua bom quando falado em voz alta.

Algumas tentativas serão melhores.

Outras morrerão no ensaio, que é um lugar bastante conveniente para uma ideia morrer.

Essa talvez seja uma das funções mais importantes da prática: criar um espaço barato para errar.

Mude uma coisa de cada vez

Existe também o risco oposto: decidir “inovar” e transformar simultaneamente estrutura, design, estilo de fala, interação e tecnologia.

Se a apresentação funcionar, você não saberá exatamente por quê. Se der errado, também não.

Experimentos são mais úteis quando conseguimos observar seus efeitos.

Você pode, por exemplo, testar uma apresentação com menos texto nos slides e perceber se isso melhora seu contato com a audiência. Em outra ocasião, experimentar começar diretamente por um problema em vez de gastar os primeiros minutos apresentando contexto. Ou substituir um conjunto de números por uma comparação visual que torne sua dimensão mais clara.

Pequenas mudanças acumuladas produzem aprendizado.

Uma revolução por apresentação produz principalmente confusão.

Peça feedback específico

“Gostou da apresentação?” é uma pergunta educada, mas pouco útil.

Quase todo mundo responderá que sim.

Feedback melhora quando a pergunta também melhora.

Em vez de perguntar se a apresentação foi boa, pergunte qual parte ficou mais clara, em que momento a atenção caiu, se houve algum slide difícil de entender ou qual ideia permaneceu na memória depois da exposição.

A diferença parece pequena. Não é.

Feedback genérico produz elogios genéricos. Perguntas específicas ajudam a identificar aquilo que merece permanecer e aquilo que precisa mudar.

E nem todo teste precisa depender de opiniões. Às vezes o comportamento da própria audiência fornece informação: perguntas recorrentes indicam algo que talvez não tenha sido explicado; pessoas fotografando determinado slide sugerem que ali existe informação percebida como útil; uma sala silenciosa no momento em que você esperava participação também está dizendo alguma coisa.

Apresentar é, em parte, observar.

O fracasso útil precisa produzir alguma mudança

Existe uma romantização do fracasso bastante comum no discurso sobre inovação.

Errar, sozinho, não ensina nada.

É possível repetir o mesmo erro durante anos com admirável consistência.

O aprendizado aparece quando existe uma sequência um pouco diferente: tentar, observar, entender e ajustar.

Se uma história não funcionou, talvez estivesse longa demais. Se uma demonstração confundiu a audiência, talvez faltasse contexto. Se um slide parecia claro no computador e se tornou ilegível na sala, provavelmente você aprendeu alguma coisa sobre tamanho de fonte que nenhum manual conseguiria ensinar com a mesma eficiência.

Na apresentação seguinte, algo precisa mudar.

É isso que torna o erro útil.

Uma apresentação melhor nasce de versões

Raramente criamos nossa melhor apresentação na primeira tentativa.

Ela vai sendo construída.

Uma abertura melhora depois de ser dita em voz alta. Um argumento fica mais simples depois de percebermos onde as pessoas se perdem. Um slide desaparece porque descobrimos que ninguém precisava dele. Uma história ganha força quando retiramos os dois minutos de introdução que pareciam indispensáveis.

A apresentação final é consequência dessas pequenas correções.

Por isso, a pergunta do pai de Sara talvez possa ser adaptada para quem apresenta:

O que você tentou fazer diferente desta vez?

A resposta não precisa envolver uma grande inovação.

Talvez você tenha usado menos slides. Explicado um número de outra maneira. Feito uma pausa maior. Eliminado uma animação. Contado uma história. Começado pela conclusão.

Algumas dessas experiências funcionarão. Outras não.

O problema não é uma tentativa fracassar.

É fazer cinquenta apresentações e continuar apresentando exatamente como na primeira.